Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

SCHNEIDER, Otto. Com ares de escândalo. O Jornal, 13 dez. 1953.

 

LIVROS

Otto Schneider

 

COM ARES DE ESCÂNDALO

 

Engraçadinho, muito engraçadinho esse moço paranaense, metido a crítico literário, querendo fazer seu cartaz á custa da obra póstuma de Graciliano Ramos. Pois imaginem que esse moço descobriu o seguinte segredo de polichinelo: existem algumas discrepâncias entre o manuscrito original, constante nos fac-similes insertos nas “Memórias do Cárcere” e o texto definitivo reproduzidos nos quatro volumes impressos. Ora, é mais que sabido quão lento e penoso era o processo de elaboração de Graciliano Ramos que costumava escrever o primeiro original a lápis. Copiava-o então a tinta, com numerosas alterações e emendas. Finalmente mandava passar o manuscrito a máquina, e uma vez mais emendava e alterava trechos, frases, palavras. Aliás, nas próprias “Memórias”, a tortura da forma transparece em várias passagens, a começar pela página 7 do primeiro volume:
– “Por que foi que um dos meus livros saiu tão ruim, pior que os outros? Perguntava o crítico honesto. E alinha explicações inaceitáveis. Nada disso: acho que é ruim porque está mal escrito. E está escrito porque não foi emendado, não se cortou pelo menos a terça parte dele”… Pois bem, ignorando ou querendo ignorar isso o jornalista paranaense pretende criar um caso, uma espécie de escândalo literário, envolvendo o filho do romancista alagoano a quem atribui levianamente interpolações, correções, cortes na obra, e admitindo, implicitamente, a conivência do editor. Não satisfeito com tão gratuita acusação de improbidade, empresta ao caso uma tintura política: o livro teria sido falsificado em proveito do Partido Comunista. Ignoro que espécie de providências vai tomar o Sr. Ricardo Ramos e o editor José Olympio para desmanchar qualquer sombra de equivoco que venha a nascer de tamanha leviandade de um jornalista carecido de senso crítico. Na realidade nem merecia bola. A meu ver, bastariam duas considerações primárias para desfazer a pueril encenação. Primeiro: houvesse o Sr. Ricardo Ramos feito alteração nas Memórias do pai, em favor de quem quer que seja, não cometeria a ingenuidade de deixar uma pista tão evidente da falsificação, como essa de reproduzir em fac-simile tantas páginas manuscritas, se estas realmente constituíssem o texto definitivo. Ao contrário, teria até destruído os originais para impossibilitar o confronto. Aqueles fac-símiles pretendem tão somente mostrar o processo de elaboração do escritor. Segundo: o editor José Olympio que fez e continua fazendo pelos autores nacionais, não seria bastante tolo para compactuar com semelhante embuste, expondo seu nome á acusação de improbidade. E não vá alguém dizer que ele teria sido envolvido ingenuamente, pois teve nas mãos, por bastante tempo, os manuscritos e o texto definitivo… E que dizer depois de tudo isso, de um indivíduo metido a crítico. Sem dar demonstração de honesto senso crítico, fazendo papel de macaquinho em loja de porcelana?

Referências Bibliográficas

SCHNEIDER, Otto. Com ares de escândalo. O Jornal, 13 dez. 1953.

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