Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

Ouvindo personagens das “Memórias do Cárcere”: Diário de Notícias, 29 nov. 1953.

 

REPÓRTER ENTREVISTA PERSONAGEM – OBRA A SER LIDA PRINCIPALMENTE POR JOVENS.

Reportagem de Eneida.

Desde que os quatro volumes, editados por José Olympio, apareceram nas livrarias, onde vendo e sentindo as mais diversas reações em diferentes pessoas, com a leitura das “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos. De início declaro que essa obra – a meu ver deve ser lida principalmente pelos jovens e adolescentes, aqueles mesmos que nasceram em dias sombrios que a narrativa de Graciliano Ramos se desenrola e que não tem hoje uma ideia clara e precisa do que seja um ditador montado num poder, rodeado de facínoras, tentando liquidar, humilhar, esmagar mulheres, homens, jovens e neles, o direito de pensar e sentir.
Dirão talvez que aconselho mal, porque muitas vezes a linguagem de Graciliano Ramos e demasiado crua; direi que recomendo essa obra sem medo, porque aos jovens não é desconhecida aquela linguagem e bom seria fosse também do conhecimento deles esse trecho eloquente da história do Brasil, dias possíveis de serem repetidos, se continuarmos apenas contemplando nuvens, sem olhar e defender o chão onde pisamos.
Vários são os personagens de “Memórias do Cárcere”, não é difícil ouvir alguns deles, inclusive porque muitos são importantes criaturas do cenário sócio-intelectual brasileiro. Mas, por isso ou aquilo (talvez mesmo por comodidade) escolhemos para ouvir Eneida, pessoa completamente insignificante, mulher banal como todos sabem: muito banal, mas muito teimosa. Ouvindo Eneida não estamos criando uma novidade: outro dia (para falar de vultos nacionais), Luís Jardim escritor entrevistou Luís Jardim pintor.
– Por que em lugar de uma entrevista com Eneida não escreves uma crônica? – pergunta o leitor.
– Porque quero entrevistar alguns personagens de Graciliano, escolhi essa mulher para começar. Posso? Respondo eu.

FALA O PERSONAGEM

– Como te sentes agora depois de aparecer em “Memórias do Cárcere”?
– O velho Graça tornou-me célebre, de um momento para outro, uma celebridade para a qual não possuo características próprias. A todo o momento gente que conheço e desconhecidos querem saber detalhes daquele tempo em que muito poucos queriam saber de mim. Não considero prisão documento de heroísmo, principalmente porque ela não faz parte de nossas ambições, acontece contra a nossa vontade; mas acho que é o único lugar do mundo onde as pessoas são realmente verdadeiras; máscaras caem, atitudes idem. As grades exigem definições claras e honestas; é impossível a quem quer que seja, fingir ou aparentar um ser diferente para seus companheiros de prisão.
– Que achas de “Memórias do Cárcere”?
– Velho e querido Graciliano! Quem seria capaz de escrever, como ele, aquelas páginas do mais alto valor literário, como por exemplo, as que refletem certas noites em que gritos tenebrosos de presos comuns primários anunciavam que estavam sendo vendidos como odaliscas? Quem seria capaz de traçar, com aquela força e consistência literárias a viagem no porão do navio “Manaus” que trouxe, entre sujeiras e maldições, nosso romancista de Maceió para as prisões do Rio? Ali a descrição dos tipos humanos é de grande acuidade. Só um romancista como Graciliano Ramos seria capaz de fazê-lo. Em “Memórias do Cárcere” há páginas tão eloquentes que chega-se a sentir – tantos anos depois – o rumor dos chicotes abrindo feridas. A única “música” que embalou o Brasil durante a ditadura Vargas foi um dos chicotes lanhando corpos.
– Você teria coragem de fazer alguma critica ao livro do Graça?
– Crítica, não; declarar tristeza, sim. Nessas “Memórias” fica demonstrado que Graciliano não foi apenas cultivador de uma atitude amarga, como parecia; ele foi um homem real, constitucionalmente amargo. Não há em suas “Memórias” nenhuma espécie de ternura. Considero impossível à forma, e técnica, à honestidade literária, alguém fazer um livro igual ao dele sobre as prisões do Estado Novo, anteriormente Dionélio Machado tentou contá-las em romance intitulado “O Louco de Cati”, mas sem repercussão.
No entanto, se a cadeia é tudo aquilo que Graciliano descreve com tanta força, ela é também, uma academia que ensina solidariedade, onde se aprende a compreender problemas sócio-políticos, uma academia de ternura humana. O importante na cadeia não é o nosso próprio sofrimento, mas acima de tudo o dos outros para o qual estamos impotentes, mãos acorrentadas, pés em grilhões, livres apenas cérebro e voz, pensamentos e protestos.

CADA PERSONAGEM UMA HISTÓRIA

– Naturalmente – vai dizendo a personagem – nem tudo está narrado em “Memórias do Cárcere”, e nem tudo está cronologicamente colocado, coisas, aliás, anunciadas por Graciliano no começo de sua obra. Ele só poderia contar fatos que viveu, com reações próprias. Cada personagem das “Memórias” tem sua própria história, seu momentos individuais, sua análise pessoal dos problemas. Cada personagem daquelas é mais do que isso, porque é uma testemunha de acusação. Mas o que importa considerar, nas “Memórias” de Graciliano é que esse homem – um dos maiores romancistas que o Brasil jamais possuiu – um escritor que honrava a profissão, verdadeiro trabalhador intelectual, esse homem que marcou sua obra pela consciência de uma tarefa a realizar, tenha deixado nas “Memórias do Cárcere” não só o seu valor pessoal como as características eloqüentes da vida brasileira em determinado momento histórico.
– Como leste “Memórias do Cárcere”?
– Ricardo Ramos – e tudo indica e eu confio que ele será o continuador da obra do pai – filho de Graça e dessa querida e grande Heloísa, mandou-me o livro com uma dedicatória; “A você que é personagem”, mas não foi por isso que eu o li sem parar, furando noites, afastando imprescindíveis leituras iniciadas. O que quis ver, sofregamente, nas “Memórias do Cárcere” – e com honestidade o declaro – foi a maneira, o tratamento que um mestre da língua e romancista completo, empregaria para contar uma história que está impressa não só na minha lembrança, mas no meu corpo.
– Tuas “Memórias do Cárcere” seriam diferentes?
– Está claro que jamais seria capaz de escrevê-las com aquela perfeição de Graciliano, mas, em todo caso, se as fizesse, jamais tentaria atenuar a responsabilidade de Vargas o ditador, como Graça procurou fazê-lo. Se algum dia eu escrevesse lembranças daquela prisão, também seriam diferentes meus personagens. Falaria por exemplo, em Rosa Meireles cujas olheiras aumentavam dia a dia pela saudade dos filhos de quem lhe negavam qualquer notícia; em Júlia, que apenas por ser empregada do casal Prestes teve seus óculos grossos propositadamente arrancados e quebrados para que ela ficasse, propositadamente, na mais completa escuridão. Falaria com ternura enorme em Sabo Berger, a maior mulher que jamais conheci em toda minha vida e que G. Vargas entregou a Hitler para matar. Sabo Berger, e em seus seios dez dedos impressos; amarrada no alto de uma escada de tronco para baixo, dois fortes homens da Polícia Especial, durante dois meses, exprimia-lhe os seios para que ela delatasse. Eu falaria em Agildo grade irmão – e grande homem; em Ivan Ribeiro, de tão clara inteligência. Falaria em muitos outros e naturalmente na minha queridíssima Nise da Silveira, também personagem de Graciliano.
– Como foi mesmo que conhecestes Graça?
– Muito rapidamente no Pavilhão de Primários da Casa de Detenção, chegando de Maceió; Graciliano já curvado, apesar de seus quarenta anos parecia ter sessenta, como ele diz. Não estabelecemos desde logo grande amizade; de início – isso depois ele próprio declarou – não lhe provoquei nenhuma simpatia, nosso entendimento que redundou na mais fraterna amizade, começou quando demos ambos com os costados na enfermaria da Correção. Nunca esquecerei não o Graciliano daquela época, mas outros homens arriados pela doença, alquebrados, definhando dia a dia. No rosto moço e belo de França uma barba branca punha um tom de personagem de romance de aventuras (chamava-o “Conde de Monte Cristo”); o esqueleto cada vez mais descarnado de Dantas (apelidei-o “Schip”, um cão muito magro de uma história de quadrinhos da época); Dantas, alto funcionário do Banco do Brasil, homem culto e de grande inteligência que só depois de muita luta conseguiu obter da polícia uma radiografia de seu pulmão. Quando chegou o resultado, ele cheio de febre e tosse, mais pálido que nunca, disse-nos – “Vou pedir à minha mulher que traga um retrato meu antes desta prisão. Eu era dobrado e até bonito; não pensem que sempre fui assim frangalho verde. Isso é o diabo! Estou tuberculoso. Por favor, tomem cuidado com vocês, tomem cuidado. Logo depois morria.

SUA ALMA SUA PALMA

– Sua alma…
– Talvez seja melhor dizer que cada preso tem uma forma de ver e sentir a cadeia. Para nós todos, os daquele tempo, os dias se arrastavam e com eles a saúde. No tornozelo direito (“aos intestinos em cascos”, como diz Graciliano nas “Memórias”), um preso comum abria furúnculos com um canivete, enquanto contava como matara dois homens para roubar. Como não sei chorar, nem gemer, acordo com um conselho de minha mãe que sempre usei (- a dor é humilhante; é melhor tocar uma gaita do que gemer), compraram-me uma gaitinha. Horas seguidas eu soprava baixinho para que ninguém sofresse com o meu sofrimento. Pensariam que eu estava aprendendo gaita. Sócrates Gonçalves compreendeu e pedia: – “Geme! Grita! Essa música que nem é música faz a gente chorar”. Nenhum heroísmo. Éramos lá como somos aqui: homens, mulheres, gente querendo ser alegre, andar, rir, brincar, trabalhar. Queríamos principalmente viver e por isso cantávamos, estudávamos, riamos, brincávamos. Sim, porque nós lá dentro ríamos: tínhamos um grupo bom e numeroso de moleques divertidos: Newton Freitas, por exemplo.
– E Graciliano?
– Na enfermaria era o que merecia maior ternura de todos nós; no começo ele me irritava, negava tudo o que eu afirmasse, inclusive em literatura. Se eu dizia bem da obra de Machado de Assis, ele resmungava: – Burro! Se eu falava de Gorki: – Burro! Depois tornamo-nos amigos (eu contei isso, ele vivo, quando fez sessenta anos) e um dia mostrei-lhe, ainda na prisão, um dos meus contos: – “Desenvolve, trabalha, há matéria e muito boa para uma novela, sua burra”.
– Sobre a personagem Eneida tens ainda alguma coisa a dizer?
– Continuarei personagem porque gosto de tomar parte nos espetáculos; o papel de espectador não me interessa. Aliás, ontem Lúcio Cardoso contou-me que vai publicar suas memórias e que nelas também apareço. Nunca pensei acabar meus dias tão e tanto personagem assim. Convenhamos que, como diz um amigo meu, deixando de modéstia à parte, é glória demais para uma mulher banal.
– Sobre “Memórias do Cárcere” mais alguma coisa?
– Declaro e afirmo que todo mundo deve ler essa obra; estou contente porque Altamiro, da Livraria José Olimpio, me disse que só ali estão vendendo, em média, trinta ou quarenta “Memórias do Cárcere” por dia. Espantoso, não só porque constituem quatro volumes, mas porque o preço é de quatro cruzeiros. É um livro imenso poderia escrevê-lo assim. Estava finda a entrevista; a repórter ouvirá agora.
– E a personagem?
Essa tem muito, muitíssimo a contar; como é uma criatura banalíssima não está gloriosa por ser personagem de Graciliano. Sua única glória é ter vivido aqueles e outros dias. Sua glória única é viver.

Referências Bibliográficas

Ouvindo personagens das “Memórias do Cárcere”: Diário de Notícias, 29 nov. 1953.

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