Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

O livro inédito. Boletim Bibliográfico Brasileiro, set. 1959.

 

O LIVRO INÉDITO – RICARDO RAMOS

 

Há cerca de três anos, li em jornal a história de uma santa de romeiros, uma pobre ambulante de Deus. Pouco depois, ainda pensando na iluminada, via um a reportagem sobre um beato morto, em comício, envolvido que fora pelas tramas da política, na sua feição mais interiorana. A primeira era uma visionária, moça e primitiva; o segundo um homem de ação. À velha maneira profética.
Durante algum tempo, as duas figuras me preocuparam, com tudo o que encerravam de beleza plástica e dramática, de movimento romanesco havia nelas vários elementos de atualização, a diferenciá-las dos santos sertanejos da década de 30, a prendê-las numa paisagem bem de agora, no entanto agreste e violenta. Foi então que as duas personagens reais se baralharam, confundiram-se numa só, diferente das que tinham originado. Talvez uma criatura enriquecida, talvez uma pura mescla. O fato é que este resultado foi amadurecendo, sedimentou-se, ganhou corpo e nome. Chamou-se Luzia, e andou comigo assim nomeado, por um largo período até que surgissem os seus acompanhantes e o todo se caracterizasse. Delineada a narrativa, estendidas as suas teias pelas figuras dos caminheiros, solucionados os problemas, de arquitetura que a intuição me sugeria, fiquei à espera de tempo e vagar para o alinhavo da possível novela. Um, dois anos. Chegaram umas férias providenciais. E as minhas sombras se resolveram nesse livro, Os Caminhantes de Santa Luzia.
Não saberia falar do seu tema, que dito ligeiramente me parece demasiado romântico. Sei que além da beata aparecem duas figuras na sua romagem, e um menino, um vendeiro, um capanga, e coronéis, políticos, gente avulsa. Talvez até mesmo exista uma cidade. E um drama que pensei alongar em ação e reflexão, tipos e situações, cores, fala e intriga. O ambiente natural de Luzia e o interior nordestino. Ali andaram os beatos que lhe deram motivo, ali pude ver, em terra sangue e voz, as raízes da santidade matuta. Procurei mostrá-la na forma indireta em que as referências de meio social, entrosadas ao movimento, servem como valorização de fundo. Algumas personagens secundárias reforçam essa intenção. E é possível que a linguagem utilizada, localizando a conformação dos tipos que vivem a novela chegue a compor a atmosfera dos caminhantes e do seu inesperado roteiro.

 

RICARDO RAMOS

RICARDO de Medeiros RAMOS nasceu em Palmeira dos Índios, Estado de Alagoas, a 4 de janeiro de 1929, fez seus primeiros estudos em Maceió. Transferindo-se para o Rio de Janeiro, cursou a Faculdade de Direito da Universidade do Distrito Federal. A partir de 1948, começa a colaborar em revistas e suplementos literários de vários jornais. Durante sete anos trabalha na redação de órgãos da imprensa carioca. Ao contrário de seu pai, que estréia na maturidade _ Caetés é editado quando o mestre Graciliano tinha 41 anos de idade – Ricardo Ramos faz a sua relativamente cedo: aos 24 anos publica seu primeiro livro de contos, Tempo de Espera (1954). O seu segundo livro é Terno de Reis (1957), também de contos, da edição da José Olympio, que traz ilustrações de Darel Valença Lins. Agora o contista alagoano, que mereceu excepcional acolhida da crítica e do público, um prêmio literário e a inclusão em várias antologias, anuncia um novo título, a novela Os Caminhantes de Santa Luzia, a sair proximamente, pela Difusão Européia do Livro, na Coleção Novela Brasileira. Ricardo Ramos reside há três anos em São Paulo, onde trabalha em propaganda comercial e dirige um suplemento literário.

Referências Bibliográficas

O LIVRO inédito. Boletim Bibliográfico Brasileiro, set. 1959.

Outras Informações

A notícia encontra-se na página 394 do Boletim Bibliográfico Brasileiro

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