Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

Não foram deturpadas as memórias de Graciliano. São Paulo: Ultima Hora, 10 dez. 1953.

 

NÃO FORAM DETURPADAS AS MEMÓRIAS DE GRACILIANO

 

“Estou sendo vítima de uma calunia infantil”, responde o filho do grande escritor ao crítico Wilson Martins – Porque não correspondem os “fac-similes” ao texto publicado – Absoluto desconhecido do processo literário – Graciliano Ramos escrevia de duas a três vezes um capitulo.

 

RIO, 9 (Sucursal) – A mania do escândalo atingiu agora os arraias das letras. O escritor paranaense Wilson Martins, em artigo publicado com a maior destaque no suplemento literário de “O Estado de São Paulo”, na sua edição dominical acusa o filho de Graciliano Ramos de ter deturpado a obra paterna, “Memórias do Cárcere”, recentemente publicada, em edição com a livraria José Olimpio, em 4 volumes, e que é, sem dúvida, o livro mais discutido do momento.
Classificando Graciliano de “péssimo comunista”, Wilson Martins afirma que o romancista “só era tolerado por seus companheiros em virtude do prestígio do seu nome e não escaparia, provavelmente, do primeiro expurgo sério”. Daí passou à grave acusação contra Ricardo Ramos, também escritor, e filho do autor de “Angústia”, responsável pela “Explicação Final” das “Memórias do Cárcere”.
Infelizmente, estas “Memórias”, na edição atual, não merecem confiança. Publicadas pelo Sr. Ricardo Ramos, que suponho filho do autor (um daqueles filhos a que ele se refere, jovens entusiastas da Revolução pichadores de paredes), elas aparecem certamente amenizadas, truncadas ou modificadas, pois é quase certo que o temperamento crítico de Graciliano Ramos não se tenha transmitido aos seus descendentes. Avalio perfeitamente a gravidade do que afirmo, mas as minhas suspeitas são confirmadas pelos “fac-similes” dos originais, anexados a estes volumes; por eles se verifica que o texto deixado pelo escritor não foi seguido na parte impressa, onde há interpolações, correções, cortes, que não constam do manuscrito, e até palavras riscadas substituídas por Graciliano Ramos aparecem no livro em lugar das que ele tinha preferido na releitura”.

COMPARANDO OS “FAC-SIMILES”

Comparando os “fac-similes”, publicados na edição de “Memórias do Cárcere” com o texto, verificou Wilson Martins algumas discrepâncias, citando dois exemplos que realmente não coincidem, levantando então a dúvida: o livro teria sido falsificado, em proveito do Partido Comunista (muito embora, o próprio crítico considere linhas atrás, no artigo que escreveu para “O Estado de São Paulo”, “Memórias do Cárcere” como a “crítica mais feroz” que já recebeu o Partido Comunista do Brasil).
Levantando a dúvida depois de citar os dois exemplos, Wilson Martins concluiu o seu libelo:
“Esses indícios são dos mais graves, porque incrustam definitivamente a dúvida no espírito do leitor: Trechos fundamentais destas “Memórias” – julgamento sobre o Partido Comunista, por exemplo, ou sobre os homens, ou ideias pessoais de Graciliano Ramos – não teriam também, sido modificados ou suprimidos? E por que se pública, então, o “fac-simile”, que é a prova de que a redação do autor não foi respeitada? A primeira condição de um livro póstumo, e da importância destas “Memórias”, é a mais escrupulosa probidade, a do respeito mais complexo ao texto deixado pelo escritor: até os seus erros evidentes devem ser mantidos, admitindo-se, quando muito, notas explicativas do editor”.

CALUNIA INFANTIL

A propósito das acusações de Wilson Martins, ouvimos Ricardo Ramos que trabalha como redator da firma publicitária Walther Thompson. Ouvido serenamente o repórter, que exibia o recorte do “Estado de São Paulo”, o jovem escritor respondeu-nos:
-Só agora tomei conhecimento do artigo. Trata-se de uma acusação leviana e pueril. Uma calúnia infantil. Lamento que tenha partido de um escritor. Pelo visto, Wilson Martins parece desconhecer o próprio ofício, ignorando por completo o mecanismo de elaboração de um livro.

A TÉCNICA DE GRACILIANO

-No caso de meu pai –continua Ricardo Ramos –o seu processo literário exigia escrever duas ou três vezes o mesmo capítulo. Com as “Memórias”, por exemplo, escrevia primeiro a lápis (primeiro original); copiava-o depois a tinta (emendando e corrigindo): em seguida, mandava passar a máquina, sofrendo ainda esse terceiro original novas emendas e correções. É mais do que evidente que os “fac-similes” não poderão corresponder ao texto impresso. Há muita coisa diferente. E por essa simples razão, na qual só um leviano poderá enxergar improbidade.

A PROVA DA COLUNA

– É muito fácil tirar a prova da calúnia – observa Ricardo Ramos. À proporção que os originais eram dactilografados, meu pai os entregava ao editor José Olimpio, que os trancava no cofre. Isto desde 1945 ou 1946. Do cofre do editor, foram diretamente para a tipografia.

Referências Bibliográficas

Não foram deturpadas as memórias de Graciliano. São Paulo: Ultima Hora, 10 dez. 1953.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Programa de Pós Graduação em Estudos Literários

Campus Universitário de Tangará da Serra

Rodovia MT 358 - Km 07. Caixa Postal 287

Jardim Aeroporto, CEP 78300-000