Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

MOLITERNO, Carlos. A Notícia Literária. Gazeta Literária: Maceió, 27 dez. 1953.

 

A Notícia Literária

Carlos MOLITERNO

 

Meu caro Ricardo Ramos: As “Memórias do Cárcere” que você teve a gentileza de me oferecer foram o melhor presente que recebi neste fim de ano. Não será preciso dize-lhe a importância que experimentei ao receber o pacote com os quatro volumes.
Também não desejo falar da expectativa que se formou em todos os círculos culturais da Província, com a notícia do aparecimento das “Memórias”. Aqui, todos os que admiram a obra de Graciliano, vivíamos espreitando as livrarias, na busca de uma informação segura sobre a chegada dessa obra. Confesso que ainda não tinha comprado os exemplares, porque o livreiro que me fornece livros desejou uma leitura, antes de entregar-me os quatro volumes.
Você bem compreende o que isto quer dizer. Principalmente tratando-se de uma obra que tem para nós alagoanos, um sentido de emoção da própria terra, não apenas pelo que nela se contém de quadros da nossa vida social e política, mas ainda porque se trata, nessa obra, de acompanhar o itinerário de sofrimentos, percorrido por um homem que soube conservar intactos todos os seus sentimentos de escritor e cidadão. Esse itinerário do seu saudoso pai – itinerário que pode ser comparado a uma dura prova de resistência moral e física -, nós o conhecíamos aqui, porém muito fragmentado, descolorido, sem o vigor e a felicidade que o mestre Graciliano Ramos nos revelou, nessa seqüência dolorosa da sua “Memórias”.
Daí o significado que tinha para mim uma leitura imediata dessa obra. Da ânsia, – confesso – com que esperei folhear este livro. E da satisfação que experimentei agora, com a sua oferta.
Aliás, quando morreu o velho Graça, tive ocasião de registra o acontecimento nessa coluna, e fiz sob a emoção das primeiras horas.
De certo não escrevi um ensaio sobre a sua obra. Porque isso não é tarefa pra um sujeito qualquer. O que fiz foi esboçar o perfil do homem Graciliano Ramos, destacando as qualidades mais rigorosas do seu caráter, as suas virtudes e suas coerências diante da vida.
Escusado será dizer-lhe que mergulhei na leitura dessas “Memórias”, com o espírito voltado para a grande vida do seu pai, revendo-o sempre, aqui na província, diretor da Instrução Pública, lidando com os problemas do ensino e com os “pistolões” de todos os tempos. E nas tardes de cavaqueiras literárias, no velho café do Cupertino, discutindo literatura co os escritores da época. Essa é a imagem que guardo do velho Graça, e que percorreu comigo todas as páginas das “Memórias”.
Receba o ilustre contemporâneo, com estas linhas, a homenagem do seu reconhecimento, com a certeza que foram as “Memórias” o melhor presente que recebi este fim de ano.

Referências Bibliográficas

MOLITERNO, Carlos. A Notícia Literária. Gazeta Literária: Maceió, 27 dez. 1953.

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