Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

MARTINS, Wilson. As memórias de Graciliano Ramos. O Estado de São Paulo, 06 dez. 1953.

Esse homem tão pouco expansivo, tão fechado sobre si mesmo, tão amargo, tão descrente, pessimista e rude, que se chamava Graciliano Ramos, era, entretanto, alguém que se sentia sempre na eminência de sucumbir os assaltos de uma sensibilidade incomum, que ansiava pela comunicação, que acreditava no homem e na literatura. A sua crosta de ouriço não passava de uma banal psicológica, que só poderia enganar aos distraídos. Encontrei-o apenas uma vez em minha vida, falou-me durante dois ou três minutos, mas não hesito em opor essa opinião á dos que o conheceram mais de perto, que conviveram com ele, e que nos transmitiram o retrato convencional de um Graciliano Ramos desmentido pela sua obra, pelos seus gestos e pelas suas confissões. Porque esse taciturno sufocava sobre a montanha de suas confidências reprimidas; esse desconfiado almejava entregar-se a um semelhante de quem, ao mesmo tempo, “não queria” se aproximar; esse desiludido escolhera a doutrina Mais repleta de mitos, ideologicamente mais ingênua e praticamente mais primária; esse revoltado e esse espírito crítico submeteu-se (em que exata medida não se sabe) a um partido político que é, simultaneamente, na definição feliz de Pierre Gaxotte, “uma religião, uma igreja, uma comunidade e uma ordem”. O que, de resto, é menos contraditório do que parece á primeira vista: por uma religião, por uma igreja, uma comunidade e uma ordem Graciliano Ramos se debateu a sua vida inteira; sem o saber pronto, aliás, a todas as heresias se por acaso as visse um dia realizadas.
Porque ele sempre resistiu aos seus impulsos naturais: confessa-se, em “Infância”, em “Memórias do Cárcere” (1), mas afirmando o valor ilusório das confissões e das lembranças; sente uma atração enorme pelo Homem, mas raramente encontra nos homens a figura dessa abstração com que sonhava (e, quando a encontra, fica perplexo, remoendo conjunturas tolas e “evitando” a única explicação verdadeira, que é a mais simples e a mais evidente, do que são exemplos vários episódios destas “Memórias do Cárcere”, em particular o cap. 15 do primeiro volume: participa de uma associação messiânica, mas o seu temperamento se recusa a acreditar nos salvadores e nas vítimas.
Nesse particular, as “Memórias do Cárcere”, é a crítica mais feroz (e quão autorizada!) que se poderia fazer ao partido comunista brasileiro, seja em suas palavras de ordem gerais, como no caso da divisão de terras, que Graciliano Ramos condena no primeiro volume (pg. 72), seja no comportamento individual dos seus militantes, com os quais o escritor teve uma convivência (é o caso de dizê-lo) nas suas prisões. O primarismo (sic) de muitos de seus companheiros de ideologia chocava-o profundamente: “Consideravam-no trotskistas, ofensa máxima imputável a qualquer de nós. Sem se examinar, ideia ou procedimento, conferia-se o labéu a torto e a direito, apoiado em motivos frívolas ou sem nem um apoio. Difamavam-se os caracteres arredios, infensos ao barulho, ás cantigas, ás aulas interrompidas, recomeçadas, ao jogo de xadrez, as índoles solitárias, propensas á leitura, á divagação inspiravam desconfiança. As palavras tomavam sentidos novos; vagas, imprecisas, tinham enorme extensão; aplicadas sem discernimento, produziam equívocos” (II,70). Ou então: “O singular dirigente achava que, para ser um bom revolucionário, lhe bastava conhecer o “ABC” de Bukharin. Solecismos (sic) e sílabas também se originavam de um preconceito infantil em voga naquele tempo: deformando períodos e sapecando verbos, alguns tipos imaginavam adular o operário, avizinhas-se dele. Sentiam-se á vontade usando a estúpida algaravia: isto lhes facilitava a arenga e encobria escorregos involuntários, impingidos por conta da linguagem convencional” (II,113). Ainda, ao referir a um dos inúmeros “hinos” cantados na prisão: “Aludia ao malogro da insurreição, (2) evidente; não queria admiti-lo e afirmava um disparate; fracasso não é derrota. Ainda as cantigas sem pé nem cabeça, enervantes; iam reproduzir-se as mesmas tolices ouvidas meses atrás (III,229). São inúmeros os trechos destas “Memórias” em que se pode verificar a desambientação (sic) de um homem inteligente no seio dos comunistas brasileiros. O “tom” inteiro do livro é profundamente anticomunista, pois Graciliano Ramos afirma repetidamente inutilidade do seu encarceramento, a sua descrença na Revolução, a imbecialidade (sic) de um governo que deixava enganar ás claras no interior de sua própria engrenagem repressiva,e, acima de tudo, a natureza anti-heróica dos seus sofrimentos; exatamente o contrário do que se esperava de um militante, cujo protótipo é o sujeito que se pavoneava pela prisão, exibindo” no peito e nas costas indícios vagos de tormentos referidos; ligeiras equimoses, traços azulados a custo perceptíveis” (II, 110).
De tudo isso o que se conclui é que Graciliano Ramos, péssimo comunista, só tolerado por seus companheiros em virtude do prestígio de seu nome e não escaparia, provavelmente, do primeiro expurgo sério. Infelizmente, estas “Memórias”, na edição atual, não merecem confiança. Publicadas pelo Sr. Ricardo Ramos, que suponho filho do autor (um daqueles filhos a que ele se refere, jovens entusiastas da Revolução, pichadores de paredes), elas aparecem certamente amenizadas, truncadas ou modificadas, pois é quase certo que o temperamento crítico de Graciliano Ramos não se tenha transmitido aos seus descendentes. Avalio perfeitamente a gravidade do que afirmo, mas minhas suspeitas são confirmadas pelos “fac-similes” dos originais, anexados a estes volumes; por eles se verifica que o texto deixado pelo escritor não foi seguido na parte impressa, onde há interpolações, correções, cortes, que não constam do manuscrito – até palavras riscadas e substituídas por Graciliano Ramos aparecem no livro no lugar das que ele tinha preferido na releitura. Citarei apenas dois exemplos, mesmo porque um estudo dessa natureza só poderia ser feito com a posse integral dos originais. No primeiro volume, diz o manuscrito: “Fiz o possível para entender aqueles homens de classes diversas, muito altas e muito baixas, seguros nelas como em estojos. Procurei vê-los onde se colocavam, nessas bainhas em que a sociedade os prendeu. Penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seu (sic) defeitos a sombra dos meus defeitos. A limitação impediria embaraços e atritos, pensei, levar-me-ia a compreender, estimar os companheiros, não arriscar julgamentos levianos…” etc.(I, 8). No trecho impresso correspondente, essas frases aparecem da seguinte maneira: “Há entre eles homens de várias classes, das profissões mais diversas, muito altas e muito baixas, apertados nelas como estojos. Procurei observá-los onde se acham, nessas bainhas em que a sociedade os prendeu. A limitação impediu embaraços e atritos, levou-me a compreendê-los, senti-los, estimá-los, não arriscar julgamentos precipitados…”etc. são dois textos completamente diferentes. O “fac-simile” anexado ao segundo volume atribui a Aporelly as seguintes palavras: “Volume fornido, um calhamaço de quinhentas páginas. No frontispício, a divisa, o escudo, as armas do ilustre fidalgo: um talher cruzado, uma garrafa, um copo, um frango em decúbito dorsal. História completa. Veremos os princípios do barão, a vida política, os negócios, a maneira como adquiriu o título. Agraciou-se naturalmente e fez esta confidência aos amigos…”etc. Ora, o texto impresso diz o seguinte: “Volume grosso, um calhau no formato dos de Emil Ludwig. No frontispício, a divisa, o escudo, as armas do ilustre fidalgo: uma garrafa, um copo, um talher cruzado, um frango em decúbito dorsal. É uma história completa do homem, a ampliação dos ridículos que publiquei na “Manha”. Veremos os princípios do barão, a vida política, os negócios, a maneira como adquiriu o título. Agraciou-se naturalmente e fez esta confidência aos amigos…”etc.(II, 48).
Esses indícios são dos mais graves, porque incrustam definitivamente a dúvida no espírito do leitor; trechos fundamentais destas “Memórias” – julgamentos sobre o partido comunista, por exemplo, ou sobre os homens, ou idéias pessoais de Graciliano Ramos – não teriam, também, sido modificados? E por que se publica, então, o “fac-simile”, que é a prova de que a redação do autor não foi respeitada? A primeira condição de um livro póstumo e da importância destas “Memórias”, é a da mais escrupulosa probidade, a do respeito mais completo ao texto deixado pelo escritor: até os seus erros evidentes devem ser mantidos, admitindo-se, quando muito, notas explicativas do editor. Mas, imprimir frases inteiramente diversas das dos originais (e repito que não se sabe até aonde foram essas liberdades injustificáveis) é procedimento contra o qual todos e cada um de nós deve protestar em nome do valor essencial da profissão de escritor, o respeito que se deve á liberdade de expressão do pensamento, que vai até á sintaxe, até á ortografia, até a pontuação. No caso particular de Graciliano Ramos, militante que andava longe da escrita ortodoxia, e espírito pouco propenso a aceitar que pensassem por ele, essa fidelidade não poderia deixar de ser a mais absoluta.
De qualquer forma, a figura humana de Graciliano Ramos ainda espera um estudo em profundidade, capaz de explicar-lhe, ao mesmo tempo, largos trechos da obra. Ele trazia dentro de sim mesmo o corrosivo que a destruía, ao lado da pertinaz esperança que o mantinha. E esse homem que deveria ser um enigma, que devia recusar a toda aproximação com os demais, é, paradoxalmente, o de interpretação mais fácil, o mais aberto ás análises, o mais copioso escritor de memórias, de confissões, da literatura brasileira.
Paradoxalmente… Mas o paradoxo é apenas aparente. As memórias são as confissões dos cépticos e as expansões dos reservados. Incapaz de se confiar a um homem, Graciliano Ramos parecia querer, como o poeta, … par un grand besoin de franchise anime, ”Se” confesser á tous, em parlant á voix haute. (ESI)

 

Referências Bibliográficas

MARTINS, Wilson. As memórias de Graciliano Ramos. O Estado de São Paulo, 06 dez. 1953.

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