Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

MARTINS, Wilson. Ainda as memórias de Graciliano Ramos. O Estado de São Paulo, 25 dez, 1953

 

AINDA AS MEMÓRIAS DE GRACILIANO RAMOS

 

CURITIBA – Sofrendo, como Machado de Assis, do “tédio á controvérsia”, eu não voltaria ao problema da autenticidade, que me pareceu duvidosa, do livro póstumo de Graciliano Ramos, se, na carta que enviou á direção deste jornal, o Sr. Ricardo Ramos não tivesse demonstrado certa confusão de terminologia literária, que agora explica todo o assunto.
Com efeito, essa carta refere que “após o original de que nos fala em seu artigo o Sr. W, “houve um segundo, também de punho do autor, e um terceiro, a cópia dactilografada…” – Então as fotocópias juntadas aos volumes não são originais do livro, e foi, por consequência, o próprio editor, no caso o Sr. Ricardo Ramos, o responsável pelo mal-entendido. Original, como se compreende no mundo inteiro, e o segundo confirma o “Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa”, é o “texto manuscrito, dactilografado ou impresso, destinado a ser composto”; é, pois, a última versão de qualquer livro ou artigo, a que é efetivamente entregue á tipografia. Se houve várias redações das “Memórias do Cárcere”, como é natural que tenha havido, então o que se poderia legitimamente chamar de originais era apenas o texto da última, que o Sr. Ricardo Ramos mesmo chama de definitivo. As anteriores não são os originais: são as fases pelas quais passou o trabalho criador, quase sempre distantes, precisamente, da redação final. Daí o seu interesse, quando se trata de estudar a construção estilística de um autor.
Assim, esses “pormenores no processo da elaboração literária”, que o Sr. Ricardo Ramos encara como um grande mistério, não “fugiram á minha percepção de um homem ordinário, sem faculdades cristalomancicas (sic), simples leitor que só pode julgar pelo que lê, pelo que os autores e editores escrevem em seus livros. Quem me dera poder adivinhar que os “originais” das “Memórias do Cárcere” não eram únicos, mas múltiplos, e que existem pelo menos, três originais, e não apenas um, desse livro famoso! Todos os meus erros de crítica – que se devem a natural imperfeição deste barro paradisíaco – seriam eliminados de imediato, e eu poderia, enfim, provar ao meu amigo Sergio Millet que a crítica realmente existe! Infelizmente, é Sérgio Millet quem tem razão, e a crítica nada mais faz que levantar suspeitas injuriosas, em lugar de iluminar os caminhos da literatura com os finais infalíveis do sábio Nostradamus.
Mas, já que assim não acontece, e que a minha enfermidade humana me obriga a tatear, com boa vontade com insuficiência, nas direções que os próprios livros me indicam, continuarei a acreditar no que leio, e sempre que um editor afirmar que publicou a fotocópia dos originais de um livro, o meu primeiro impulso, tratando-se de autor falecido, será o da comparação entre esse texto, que deve ser o de finitivo, com as páginas impressas. Nada mais natural – e, se me for permitido dizê-lo, estarei, com esse procedimento, dentro das mais rigorosas regras que presidem á publicação das obras literárias.
Tanto é assim que se costuma fotografar não os textos, mesmo definitivos, mas as provas tipográficas, o que serve, ao mesmo tempo, de documentação literária e editorial: o leitor poderá sentir, simultaneamente, o trabalho estilístico do escritor e saberá que se trata, no texto impresso, de alterações por ele mesmo introduzidas. As explicações que o Sr. Ricardo Ramos dá gora, um pouco tardiamente, deveriam ser oferecidas ao leitor juntamente com o livro, já que se decidira publicar “fac-similes” de páginas que não são os seus originais: é outro hábito por assim dizer tácito, sempre que se trata de edições póstumas. Isso teria evitado – ainda mais se tais explicações viessem acompanhadas das necessárias provas fotográficas – toda e qualquer suspeita de modificação fraudulenta. E, já que estamos nessa ordem de ideias, eu lembraria que autenticidade de um livro com “Memórias do Cárcere” não interessa apenas á família do escritor: interessa muito mais, e menos antes, á literatura brasileira, e á nossa história social destes últimos vinte anos. Não é a família do escritor que primacialmente se deve sentir comprometida nessa pureza, mas sim os milhares de leitores que receberam o livro como um documentário de primeira importância e que precisam saber se podem confiar nele. O Sr. Ricardo Ramos nos afirma que podem: tanto melhor, e eu, pessoalmente, não desejo outra coisa, tanto mais que, pouco íntimo da pessoa Graciliano Ramos, encontro nesse livro o seu retrato definitivo – tão diferente daquele que, durante inúmeros anos, e em vida mesmo, circulava nos meios literários. Orgulha-me, de resto, a modesta satisfação de ter escrito sobre a sua obra um dos meus estudos mais trabalhados e cujas conclusões fundamentais o seu livro póstumo veio confirmar. Esse ensaio provavelmente não agradou ao principal interessado, mas que fazer? Escrevo não para satisfazer os autores, ou suas famílias, mas tenho em vista uma ambição mais alta, que é a de testemunhar a vida literária do Brasil, durante o ínfimo tempo que me for dado vivê-la.
Ainda nessa carta, o filho de Graciliano Ramos demonstra mais uma vez pouca familiaridade com a literatura: é quando aponta o exemplo de “Angústia”, que sofreu diversas modificações de estilo desde a segunda á penúltima edição, a derradeira que o autor pode alcançar”. Mas, justamente por ter sido publicado e sucessivamente reeditado em vida do autor, a questão da autenticidade não se coloca com a relação a esse romance. Teria graça discutir a autenticidade de um livro que o próprio escritor dá á publicidade! O Sr. Ricardo Ramos me julga mal. E não são as correções estilísticas que me inquietam: são as outras. Se citei dois trechos em que apenas modificações de redação se apresentavam é porque elas quer queira, quer não queira o Sr. Ricardo Ramos, lançavam suspeita – que nada vinha impedir – sobre o resto de um livro tão importante, tão intimamente ligado ás questões mais delicadas.
Assim como eu não poderia saber quantos “originais” teve o livro de Graciliano Ramos, o Sr. Ricardo Ramos também nada pode saber sobre os meus métodos de trabalho. Como se aventura, pois, a afirmar que meu artigo foi escrito “á pressa” (sic) Ás pressas ou devagar, não avancei leviandades, e, afirmando que o texto impresso das “Memórias” não correspondia aos fotografados dos “originais”, documentei suficientemente o que dizia. Mesmo, “á pressa”, e de supor a minha percepção” não seja, pois, tão ruim quanto parece.
Discordo, ainda, do Se. Ricardo Ramos quando qualifica este “incidente” de “desagradável”. Tais incidentes são comuns na vida literária, e este nada tem de desagradável: ele terá permitido que o filho de Graciliano Ramos e alguns outros jornalistas brasileiros viessem afinal, a saber, o que, em literatura, chamamos de “originais”; esclareceu um aspecto fundamental das “Memórias do Cárcere” e provou de minha parte, uma atenção de leitura e um escrúpulo bem maiores do que a argumentação polêmica poderá afirmar. Lamentável é apenas que o Sr. Ricardo Ramos tenha descido a insultar-me, através de jornais desqualificados, demonstrando, ainda mais uma vês, sua falta de preparação para a vida literária, de um lado, e, por outro lado, para carregar dignamente a pesada herança que lhe coube. (ESI).
N.da R. – Com a publicação deste artigo o “Estado de São Paulo” considera o incidente definitivamente encerrado, no que lhe diz respeito, uma vez que as duas partes tiveram oportunidade de manifestar-se amplamente através das colunas.

Referências Bibliográficas

MARTINS, Wilson. Ainda as memórias de Graciliano Ramos. O Estado de São Paulo, 25 dez, 1953

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