Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

JURANDIR, Dalcidio. Jovem Piloto ou Boi Morto. Imprensa Popular. 11 out. 1953

 

JOVEM PILOTO OU BOI MORTO

Dalcídio Jurandir

 

Analisando uma das características da atual situação brasileira, a «Voz Operária», de 4 do corrente, em seu editorial, salienta: “Sim, as massas estão em movimento, as lutas crescem e tendem a crescer mais ainda – este o fator dominante em todos os acontecimentos em todos os homens de vanguarda precisam levar suficientemente em conta”.

É claro que esse ensinamento se estende aos escritores e artistas para a formação de sua cultura, a criação de suas obras, a perspectiva de seu trabalho e principalmente para a atividade da crítica. Os escritores de vanguarda, por experiência própria, já não podem mais ignorar que não há literatura acima das classes e que a política ocupa na criação literária um lugar necessário e insubstituível. Essa tem sido a lição de todos os tempos. Até um Dutra afirma: a política, como o ar, está em todos os lugares… Como esconder esse fato que se revela incessantemente em toda a ação dos homens e em todo o seu pensamento?

Escrever uma obra literária, exercer a crítica, levantar uma rápida análise, um simples comentário sobre este e aquele livro, para um escritor de vanguarda, importa tocar não apenas em fenômeno isolado, mas num conjunto de questões intimamente ligadas entre si, questões, no caso brasileiro que assumem importância crescente nos quadros da situação atual. Veja se o que acontece com os escritores e artistas confessadamente a serviço de suas classes dominantes. São consequentes no oficio da calunia, do ataque sistemático, na desesperada defesa de suas posições. Quando não atacam e tendo sempre em conta o ponto de vista político, usam o silêncio em torno de nomes que se recusam a seguir o sujo caminho deles Por isso é que na atual situação a responsabilidade dos homens de vanguarda acentua-se. E nos faz recordar a advertência de Stendhal marcada neste breve diálogo, entre o velho e o moço:

O velho continuemos.

O moço: examinemos.

Continuar aqui no Brasil é continuar o governo de Getúlio, quer dizer continuar a catástrofe, é servir moral e literariamente às velhas classes que produzem um Cleofas ou um Ademar, um Tenório ou um Góis, é aceitar e praticar as regras da submissão e corrupção dos Lins do Rego e dos Ericos Veríssimo. E deslizar na gentil e amena carreira dos suplementos e das amizades de livrarias.

Examinar?

A diferença é grande. E ter na cabeça as grandes ideias de nosso tempo, e ver as coisas e os homens em movimento e em transformação, é olhar adiante. Essa constante necessidade de crítica essa audácia de tudo examinar com vigilância crítica e insatisfação fecunda é o que nos tornará capazes de participar do movimento de massas que cresce em nosso país. Os escritores e artistas não podem tapar os ouvidos à tempestade que aproxima. E a lição do nosso tempo. E a, chave de nossa participação como escritores consequentes na luta contra o que impede a cultura, estrangula as letras e as artes em nosso país.

Quando se trata da crítica literária, não é possível limitarmo-nos a uma cautelosa apreciação, pretensamente objetiva da obra, aparentando tática ou isenção, renunciando ao espírito crítico, colocando o livro acima dos pontos de vista políticos do autor e de quem aprecia. Recente artigo de Ricardo Ramos sobre um romance de cangaço é um modelo dessa aparente neutralidade e isenção. Que romance, que assunto, que oportunidade para abordar problemas e teses nas mãos de um crítico de vanguarda! Não seria justo que esse crítico encarasse o redemoinho das contradições que essa obra apresenta e daí trouxesse um exame cheio de indicações e ensinamentos, confrontando em breves traços a realidade expondo no livro com a do meio de onde surgiu o romance com as ideias do romancista e sua posição política? Nada disso quis fazer o jovem crítico. O artigo foi amistoso, laudatório, com presunção de objetivo. Esqueceu-se daquele entusiasmo com que saudava as grandes ideias da nova crítica e agora parece que prefere deslizar, satisfeito, entre as gentilezas e as louçarias de uma qualquer carreira literária. E que autor escolheu para objeto de seu artigo, uma obra que reclamam por todos os motivos, um exame cada vez mais exigente e esclarecedor. Entretanto, Ricardo Ramos encontrou tudo bem no livro, adaptando-se naturalmente às prescrições de classe do suplemento onde foi publicado o artigo, o que de resto é uma capitulação. Odilo Costa Filho seria mais independente na sua crítica.

Meu caro Ricardo Ramos. Olhe para trás, e verá onde ficam os capitulacionistas, os que transigem os que “continuam”. Pense bem nas palavras do editorial de nossa “Voz Operária.” Deixe as cautelas literárias de lado, tenha cuidado com as seduções dominicais do suplemento literário, não seja olaque de autores que mais necessitam de críticas que elogios, Ricardo Ramos. Creio que você leu um artigo de Lênin sobre Herzen muito necessários aos escritores brasileiros de vanguarda. Herzen falava nos “jovens pilotos da fatura tempestade.” E acrescenta Lênin: “A tempestade é o movimento das próprias massas. “O proletariado, a única classe revolucionária até o fim, levantou-se à frente das massas e, pela primeira vez, arrastou para a luta aberta, revolucionários, os milhões de camponeses.”

Não há mais dúvidas de que essa é também a tempestade que se aproxima em nosso Brasil. Ou terá dúvidas ou receios ou crê que não, meu caro Ricardo Ramos? Será que Ricardo Ramos, talento autêntico, se recusa como escritor, como cotista, como crítico, a ser um desses jovens pilotos da futura tempestade, em troca de uma carreira literária tão sem futuro, de “apagada e vil tristeza”, tão “boi morto”, ao lado dos Lins do Rego e das Raquel de Queiroz.

 

Referências Bibliográficas

JURANDIR, Dalcidio. Jovem Piloto ou Boi Morto. Imprensa Popular. 11 out. 1953

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