Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

CAVALCANTI, Valdemar. O espolio de Graciliano Ramos. O jornal. São Paulo: maio de 1953.

 

O ESPOLIO DE GRACILIANO RAMOS

 

Só vendo o que faz atualmente a viúva de Graciliano Ramos com os papéis, autógrafos e recortes de jornais, que o marido deixou desarrumados – ele que era, no entanto, a ordem e o método em pessoa. Não falo dos originais dos seus quatro volumes de memórias, relativas a determinado período dramático de sua vida; isso Graciliano Ramos ainda teve tempo de preparar direito, mesmo quando tenazmente perseguido pelo mal terrível que haveria de vencê-lo. Só o último capítulo ficou no borrão, porque escrito justamente na sua fase derradeira, quando já lhe fugiam as forças para sobrepor-se á dor e fazer aquilo que deu à sua arte um tom de grandeza e condições excepcionais de durabilidade: fazer a limpeza, cortar palavras e tornar o estilo mais seco e preciso. Esse último capítulo vai ser publicado com alguns esclarecimentos e notas do próprio filho do romancista, Ricardo Ramos, jovem escritor em quem se reproduzem, num desses raros fenômenos biológicos e literários, a um só tempo, algumas das qualidades do pai.

São outros os papéis de que falo e que Heloisa Ramos vem agora arrumando com uma paciência e um cuidado exemplares: são artigos, crônicas de sentido folclórico, pequenos ensaios e contos que o “velho Graça” deixou esparsos em jornais e revistas. Nesse meio até aparecem colses (sic) de seu tempo de aprendizagem literária, que ele decerto não gostaria de ver reunidas em livros, mas que se deve guardar, evidentemente, e franquear ao crítico que se disponha a estudar em profundidade a obra e a personalidade de Graciliano Ramos.

Do esforço inicial de pesquisa e seleção resultaram dois volumes que me parecem digno de publicação: um de crônicas sobre tipos, fatos e aspectos peculiares da vida no interior – série de crônicas em que possivelmente se conservaria o título original de Quadros e Costumes do Nordeste; e outro de estudos sobre temas literários, nos quais estão gravados muitos dos pontos de vista e idéias que ele defendeu a vida toda. Afora isso, há ainda uma espécie de História do Brasil para Crianças, com a qual se poderia formar um volume.

 (Continua na 5.ª página)

O espolio de…

(Conclusão da 1.ª página)

Juntando-se aos livros de literatura infantil que ele publicou e cujas edições se encontram de há muitos esgotadas – História de Alexandre e A terra dos Meninos Pelados.

Não para o trabalho de Heloisa Ramos: está ela juntando tudo o que se escreveu sobre o grande romancista brasileiro, sistematizando todo esse material, organizando uma relação completa de fontes de informação e de crítica. Trabalho penoso a que se entregaria, de fato, quem…………  grande escritor. E trabalho de valor inestimável para o historiador literário que amanhã se aventure não só a estudar a herança literária de Graciliano Ramos como a avaliar os seus reflexos no meio ambiente e mesmo determinados aspectos da mentalidade de uma época.

Por ai se vê que a tarefa que se impôs Heloisa Ramos não é uma simples manifestação sentimental de unção necrofila ela está conscienciosamente realizando um trabalho que se reveste da maior utilidade, do ponto de vista da cultura brasileira. E um trabalho que não poderia nunca ser levado a efeito por qualquer, por alguém que não fosse igualmente movido pelo amor e pela saudade, mesmo que nisso aplicasse todos os recursos de sua técnica e todo o seu fanatismo de pipliófilo.

Isso, afinal de contas, é de e ressaltar com a necessária ênfase, já que exemplos assim de dedicação à glória alheia vão escasseando e mesmo desaparecendo de vez. Noutro país, com outra compreensão dos fenômenos de cultura, a um Graciliano Ramos morto se prestariam todas as homenagens a que faria jus, pelo que teria deixado à nação em letra de forma. Haveria a formação natural de um culto à sua memória, em sinal de respeito e reconhecimento, a fim de que não se apagasse no espírito do povo, a lembrança de um homem de exceção, que se fizera amado e admirado pelo gênio criador. No Brasil, porém, a coisa é diferente: temos como ninguém, o dom de esquecer (além do de saber ignorar, às vezes). Grande morto, entre nós, em geral nome depois da missa de sétimo dia.

Referências Bibliográficas

CAVALCANTI, Valdemar. O espolio de Graciliano Ramos. O jornal. São Paulo: maio de 1953.

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