Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

CAVALCANTI, Valdemar. O caso das Memórias. O Jornal, 16 dez. 1953.

 

JORNAL LITERÁRIO

 

O CASO DAS MEMÓRIAS

 

De início, teve o efeito de um impacto nos meios literários a denuncia apresenta em tom enfático e com uma ponta de sensacionalismo por um crítico de responsabilidade: a de que teria sido adulterado o texto das “Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos. Adulterado pelo próprio filho do escritor morto, com a conivência do editor José Olympio. Uma denuncia , como se vê, da maior gravidade.
Antes de tudo, quem teria levantado a lebre? Um desses rapazes ávido de cartaz? Uma nova geração impaciente pela glória passageira das referência nos suplementos literários? Um comentarista leviano, que estivesse pensando apenas em armar escândalo, á sombra de um nome respeitável? Nada disso. Partiu a acusação de um crítico que embora jovem ainda, já se assegurou uma posição de relevo entre os companheiros do mesmo ofício, justamente pelas qualidades de ponderação e equilíbrio que sempre demonstrou: o Sr. Wilson Martins. Ainda este ano publicara ele um livro de excelente contestura, em que se apuram aquelas qualidades: um ensaio sobre a crítica literário no Brasil.
Pois acontece que a denúncia feita quanto a possíveis rasuras na obra póstuma de Graciliano Ramos nem parece haver partido do mesmo crítico sereno e consciente de sua função. Foi ao que tudo indica apenas o espalhafato indesculpável de quem ouviu cantar o galo sem saber onde. Chego a crer que não tenha havido no caso má fé ou má vontade. Vamos dizer então que houve um acesso de candura. Infelizmente não posso, contudo, incluir a candura entre as virtudes de um crítico.
Que provas tinha ele em mão para se aventurar aquela arrojada afirmativa? Tinha os fac-similes divulgados esparsamente nos volumes das memórias, a título de documentação. Fazendo um confronto entre autógrafos e o texto publicado, viu o crítico que havia diferenças – e foi bastante para que saísse a campo, afobadamente, para fazer aquela acusação.
Precisamente aí é que se manifesta a candura: onde já se viu alguém falsificar alguma coisa e apresentar propositadamente as provas desta falsificação? A não ser assim, então os responsáveis pela coisa na realidade seriam uns cretinos da mais refinada espécie. Uns bobocas, autênticos aprendizes de vigaristas.
Porque pecava pela base e não tinha a menor consistência, a denuncia se desfez por si mesma, caindo no vazio, antes mesmo que a rebatesse energicamente, com documentação suficiente, o próprio filho de Graciliano Ramos.
Quem conheceu de perto o grande escritor brasileiro e por acaso o viu trabalhar ou lhe folheou os originais, sabe muito bem a que processos rigorosos ele submetia o seu estilo, até torná-lo aquele modelo de sobriedade e precisão. Ninguém entre nós foi mais cioso do que exato valor das palavras que o mestre Graciliano. E ninguém ignora que até perto de morrer ele ainda retocava as sua páginas na ânsia de dar-lhes a forma definitiva e o apuro clássico. Aliás, há nas suas Memórias do Cárcere várias referências a essa preocupação que foi um traço inconfundível de sua personalidade.
Foi pena, pois, o que aconteceu com o jovem crítico do sul: quis jogar uma bomba – e ela estourou-lhe nas mãos.

Referências Bibliográficas

CAVALCANTI, Valdemar. O caso das Memórias. O Jornal, 16 dez. 1953.

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