Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

Bilhetes do Rio. A Gazeta, 09 dez. 1953.

 

Bilhetes do Rio

Graciliano

 

Rio, 9 (Dep. A GAZETA) – “Memórias do Cárcere” é o grande livro do momento, Graciliano Ramos escreveu sua obra definitiva, em que personagens vivas passam diante dos nossos olhos, numa fixação literária que é o mais perfeito trabalho do mestre da ficção brasileira contemporânea.
Graciliano não esconde o pensamento, não simula atitudes, nem dissimula a profunda e amarga melancolia de sua grande alma. Ele foi o tipo radical do anti-snob (sic), do anti-cabotino, do anti-acadêmico. A fisionomia e a estrutura de seu espírito estão a descoberto, em pleno e escandaloso nu, neste livro de memórias.
Geralmente, os que escrevem suas memórias as querem publicadas, quando já estejam mortos. Por quê? Porque deixam nelas amarguras e ressentimentos, por vezes acrimônias e asperezas, e não teriam coragem de ver que resultados provocariam. Há nisso uma certa covardia.
O que Graciliano deixou escrito em suas “Memórias do Cárcere”, é o retrato exato de sua alma, tal como a conhecíamos, tal como ele nunca a ocultou de ninguém. Também não era de seu temperamento expô-la e exibi-la, como certos ressentidos clamorosos, que costumam fazer do lugar em que se acham verdadeira e autentica feira de… Vaidades feridas, na mais ridícula auto-camelotagem…
Graciliano tinha o pudor de suas mágoas, se mostrava sua alma nua, sem os véus que a psicanálise quer levantar, todavia um secreto recato havia nele, como quem quisesse esconder dos olhos do público alguma coisa que não podia esconder.
Em “Memórias do Cárcere” desfilam esbirros policiais, a serviço de mesquinha politiquice de aldeia. A tragédia moral de grandes almas, jogueteadas pela prepotência eventual de nanicos e sevandijas, é a eterna e monótona história de todas as perseguições. Não queremos dizer com isto que, por exemplo, não haja razão de vigilância em torno de notórios e sabidos corifeus da desordem e da subversão. O que nunca se justifica, em tempo algum, em nenhum país, é a tortura física como penalidade policial, tanto pior quando aplicada antes da formação da culpa ou de sentença judicial.
Os dramas que Graciliano relata em seu livro são pungentes e ferem a nossa sensibilidade de brasileiros, sendo, como é o brasileiro, o tipo do “homem cordial”.
Que haverá de secreto e misterioso no fato de alguém, ao fazer-se polícia, subverter o espírito, virar a alma pelo avesso? Por que um homem pacífico, tolerante, se transforma em Cerbero (sic), quando chamado a desempenhar funções policialescas?
Mas, Graciliano registra esses dramas em seu livro, sem ressaibo de ódio. Sua grande alma deixa escorrer apenas ironia comburente, não estudada, não acadêmica. É com a ironia que ele castiga. E mesmo quando ironiza aquilo que prezamos, não sentimos revolta contra ele, porque sabemos que obedecia a critérios e valores, retos dentro de sua singular psicologia.
E que humildade, que pouco caso fazia de si mesmo este gigante! Enquanto pigmeus posam como monumentos, este homem colossal sente-se um nada. Que grande lição pratica oferece este homem sem religião a muitos ledores assíduos e altivos da “Imitação de Cristo”… E sua humildade não é um esforço contra si mesmo, porém a de fluência clara, límpida, serena, de sua alma. A exaltação de Graciliano nasce da sua profunda, humana humildade.
E o escritor? Que páginas equilibradas, translúcidas ele deixou em “Memórias do Cárcere”! Seu estilo cristalizou-se na perfeição. Não há musicalidade exterior, procurada, arranjada. Mas, há música interior, há um ritmo incompassível, há a suprema beleza da forma que reponta da mais acabada maturação das ideias, no seu livro de memórias. Ele é poderoso argumento de que a ficção e a narração podem conciliar-se com a gramática.
Graciliano há de ter deixado muitas páginas inéditas. A Ricardo Ramos cabe ordená-las e publicá-las. A seus sentimentos filiais, como à inteligência que legitimamente herdou, incumbe manter acesa a flama de beleza da obra de Graciliano.

Referências Bibliográficas

Bilhetes do Rio. A Gazeta, 09 dez. 1953.

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