Bibliografias SOBRE Ricardo Ramos

As Memórias de Graciliano Ramos. O Estado de São Paulo. São Paulo, 15 dez. 1953.

 

AS MEMÓRIAS DE GRACILIANO RAMOS

 

A propósito do artigo do último domingo deste jornal e assinado pelo nosso colaborador, Sr. Wilson Martins, recebemos a seguinte carta do Sr. Ricardo Ramos:
“Rio de janeiro, 9 de dezembro de 1953. Esmo. Sr. Júlio de Mesquita Filho. M.D. Diretor d’“O Estado de São Paulo”, prezado senhor – lendo a página literária do seu jornal – que há pouca tecia ao livro “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, comentários oportunos – encontramos um artigo do Sr. Wilson Martins sobre esta obra envolvendo-nos com algumas referências e acusações da maior gravidade.
Pretende o Sr. Wilson Martins que “Memórias do Cárcere” foi adulterado, e nos aponta como o responsável natural por largos trechos “provavelmente amenizados, truncados ou modificados”. Uma suposição que se origina em simples equívoco: o crítico leu um dos primitivos originais manuscritos estampados na edição do livro em apreço, comparou-o ao texto corrente, encontrou diversas correções de natureza estilista. E se apressou em tirar conclusões. Esse o principal engano. Vejamos, entretanto, qual o método seguido pelo autor, a história do livro “Memórias do Cárcere”.
Após o original do que nos fala em seu artigo o Sr. Wilson Martins, houve um segundo, também do punho do autor e um terceiro, a cópia datilografada – tarefa realizada por minha mãe – que resultou definitivo, ainda com pequenas modificações. São pormenores no processo da elaboração literária que se pretendeu trazer ao leitor e que fugiram á percepção do crítico Wilson Martins, esquecido também da outras emendas que poderia haver e realmente existiram nesse intervalo. Corrigidos, em originas definitivos, os capítulos iam sendo entregues, pessoalmente, ao editor José Olympio, guardado em seu cofre particular. O livro foi elaborado de 1946 a 1951, quando o autor, num documento assinado, autorizou o seu lançamento em caso de morte. Como se verifica, os originais definitivos foram entregues pelo próprio Graciliano Ramos ao editor, muito antes de seu falecimento. Há cerca de seis meses, o Sr. José Olympio planejou a edição de “Memórias do Cárcere”, achou conveniente uma explicação final em torno do último capítulo, não escrito. Foi o que fizemos esta a nossa contribuição única. Até mesmo a revisão; a um pedido nosso, foi realizada por um dos sócios da casa editora, o escritor Antonio Olavo Pereira. Assim, pensamos haver colocado a questão das responsabilidades nos devidos termos. E frisando que a publicação de “Memórias do Cárcere” se deve exclusivamente á vontade expressa do autor, trata-se de uma edição em que foram respeitados os seus originais – e não poderia ser de outra maneira – desde a ortografia até o título e a divisão dos volumes.
Para esclarecer o problema, apresentamos ao exame de V.S. cópia fotográfica de um dos trechos impugnados pelo crítico, onde existem correções a mão do próprio Graciliano Ramos, nos últimos originais por ele revistos e entregues ao Sr, José Olympio. Chamamos a atenção para o fato de que o romance “Angústia”, já em 6ª edição, sofreu diversas modificações de estilo desde a segunda á penúltimo edição, a derradeira que o autor pode alcançar. Se o Sr. Wilson Martins compará-las, e possível que também nos venha responsabilizar, ver interferência nossa no que foi uma das sérias preocupações de Graciliano Ramos. No entanto, a realidade corresponde fielmente ao que expomos. E acreditamos que uma comparação, mesmo ligeira, dos “fac-símiles” anexos apague as dúvidas que possam restar. As referências de ordem pessoal com o que o Sr. Wilson Martins nos visou correm por conta de um artigo escrito á pressa, sem as informações e a reflexão necessárias. A época em que o livro transcorre, éramos uma criança de sete anos, não nos poderiam preocupar as questões insinuadas. Trata-se de nossos dois irmãos mais velhos. Um deles, infelizmente, já não existe; o outro pensa como nós: a obra de Graciliano Ramos é intocável, não reconhecemos em ninguém autoridade para uma censura prévia.
Concluindo, lamentamos o incidente desagradável e nos firmamos, atenciosamente, Ricardo Ramos.
Acompanham a carta os “fac. símiles” das provas citadas.

Referências Bibliográficas

As Memórias de Graciliano Ramos. O Estado de São Paulo. São Paulo, 15 dez. 1953.

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